Jornal Semanário, composto e impresso pela Empresa do Jornal do Comércio, SARL, O 25 de Abril do Povo iniciou a sua publicação a 3 de julho de 1976 sob direção de Manuel Vaz.
No seu manifesto/estatuto editorial, apresentava-se como um jornal que pretendia ser uma tribuna de luta antifascista, que fornecesse notícias das lutas e movimentações operárias e que fosse pela Reforma Agrária, alimentando dia a dia,
a "chama da luta pela vitória do Povo".
Um voo singular e longo
"Ali – tudo o que é grande, forte, altivo:
A Águia poisa, a nuvem pára,
O ar é puro e vivo
O Céu é mais profundo e a luz mais clara!"
(Jaime Cortesão, A morte da águia, Poema heróico)
Ao atravessar a Primeira República, A Águia fez e deu a conhecer o ambiente cultural e cívico da segunda e da terceira décadas do século XX português.
A leitura das peças dos quatrocentos e vinte e três autores publicados transfere-nos para o seio dos confrontos doutrinários, das expressões de sensibilidade e das referências culturais da época.
Ao apresentar-se, a partir de Janeiro de 1912, como órgão da "Renascença Portuguesa", a revista mensal de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social passou a dar expressão a um dos movimentos de intelectuais mais significativos e bem sucedidos na história nacional, pela ambição invulgar que mostrou, pelas vontades que soube congregar e, sobretudo, pela actividade criativa, editorial e formativa que desenvolveu.
O próprio subtítulo, acima transcrito, regista a largueza de um gesto que queria abarcar autores distintos e domínios variados, desde que unidos pelo propósito de se subordinarem ao imperativo da reforma cultural da comunidade nacional. A atenção dispensada às artes, com a inclusão regular de gravuras originais, mais tarde reunidas em álbum autónomo, exemplifica, em âmbito particular, um desígnio que era geral.
Embora a esperança de ressurgimento nacional assente na edificação dos concidadãos tenha merecido ampla adesão, já a aproximação dispensada ao nacionalismo novi-romântico e ao programa saudosista anunciado por Teixeira de Pascoaes, no editorial de abertura da segunda série, mostrou-se bem mais circunscrita. Álvaro Pinto, a alma executiva do periódico, tomou mesmo a iniciativa de propor a declaração de que o saudosismo não constituía doutrina da revista, António Sérgio contestou-o, em polémica viva, e o próprio Pascoaes acabou por retrair-se face às reservas suscitadas pela iluminação poética que revelara.
A par da riqueza, da variedade e das contradições dos letrados da época, mormente nas suas vertentes adversas à positividade da racionalidade científica, A Águia distinguiu-se por dar a conhecer uma república com vida intelectual policêntrica.
Não deixando de ser um título de vocação nacional, aliás, bem sucedido desde o início, a revista foi sempre uma publicação centrada no Porto, mesmo quando Álvaro Pinto levou a sua produção para o seu Anuário do Brasil, no Rio de Janeiro.
A este propósito, não pode deixar-se de sublinhar que o vínculo do mensário ao Porto redobrou a partir da terceira série, dirigida por Leonardo Coimbra. Por um lado, o projecto seareiro, congeminado por renascentistas do grupo de Lisboa, a que Jaime Cortesão se juntou, afirmou-se e fez vingar as teses que tinham oposto Proença e Sérgio a Pascoaes. Por outro lado, a criação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, por iniciativa do próprio Leonardo Coimbra, conduziu a um relacionamento muito próximo entre a direcção da revista e a actividade docente da nova e irreverente escola.
A leitura de A Águia, na elucidação das vozes, tonalidades, convergências, contradições, percursos e ciclos que lhe foram próprios, não cabe, obviamente, neste apontamento introdutório, que se destina a assinalar tão-só o lugar maior que o mensário ocupou na história intelectual recente.
[...]
Luís Andrade
Boletim editado pela F.P.L.N e dirigida por Manuel Sertório
A Batalha (Diário da Manhã: porta-voz da organização operária portuguesa): nº1: 23 fevereiro 1919, Redactor principal: Alexandre Vieira. Prop. União Operária Nacional.
A Batalha (Suplemento literário e ilustrado): Ano I, 1923 (3 dez, nº1, Redactor principal: Carlos José de Sousa; editor Carlos Maria Coelho) até ano IV, 1927 (27 jan, nº 166, director: Manuel da Silva Campos, editor Carlos Maria Coelho). Prop. Confederação Geral do Trabalho
Quando surgiram as primeiras notícias sobre a intenção da Comissão Administrativa de A Batalha criar um novo órgão de exposição doutrinária, em Novembro de 1923, a organização anarco-sindicalista encontrava-se diluída numa série de dilemas e contrariedades que enfraqueciam a posição dominante de que gozava no seio do movimento operário, desde a sua fundação em finais de 1919.
O contexto político, não lhe sendo naturalmente favorável, contribuiu para dificultar a acção da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e do seu jornal diário. Entre a repressão aos comícios contra a ocupação do Ruhr e as greves em resposta ao encarecimento do pão, ou as perseguições e prisões arbitrárias de camponeses e operários (só o secretário-geral da CGT, José da Silva Santos Arranha, foi encarcerado três vezes), o ano de 1923 não foi propício ao sucesso da actividade propagandística da confederação. Também a sua vida interna agravou esta circunstância. Entre 1921 e o III Congresso Operário Nacional, em Outubro de 1922, a CGT confrontou-se com o abandono de inúmeros militantes e dirigentes que se aproximaram do comunismo, além de ter fomentado e participado activamente na discussão em torno da sua adesão à Associação Internacional dos Trabalhadores de Berlim ou à Internacional Sindical Vermelha (ISV), que contribuiu para a cisão do sindicalismo português e debilitação da sua base hegemónica. Como consequência da posição tomada pelo Conselho Confederal nesta questão, ao favorecer a entrada dos confederados na Internacional de Berlim e alegadamente obstruir o contraditório, que se iria reflectir no Manifesto dos 21, Arranha demitir-se-ia em Novembro de 1923 e, no mesmo mês, o Comité Confederal iria sofrer uma recomposição.
À expansão do primeiro triénio de vida da CGT, sucedia-se um período de menor vigor, com perda de números nas suas fileiras e que se reproduziu também no seu principal órgão na imprensa diária: a partir de 1923, eram cada vez mais as dificuldades em suportar a alegada tiragem diária de 18000 exemplares de A Batalha, o que levou a Comissão Administrativa do jornal a duplicar o preço de 10 para 20 centavos. O valor do jornal não era, porém, o único problema. A própria direcção ideológica não era suficientemente clara e o trabalho propagandístico era considerado defeituoso, pelo que o Conselho Confederal exigiu, em Novembro, que A Batalha assumisse uma orientação sindicalista revolucionária, de acordo com as deliberações do congresso operário do ano anterior, na Covilhã.
Foi neste contexto que nasceu o Suplemento literário e ilustrado de A Batalha, a 3 de Dezembro de 1923, publicado à segunda-feira para garantir a pausa dominical dos tipógrafos e redactores de A Batalha, e que propunha ser o "companheiro intelectual do operário" e levantar a propaganda da Ideia. A impressão era feita numa oficina gráfica na Rua da Atalaia e o preço de venda ao público era de 50 centavos, havendo uma modalidade de assinatura independente da do jornal diário. A segunda-feira era também passada a preparar a expedição postal para os assinantes, incluindo escolas, sindicatos e associações culturais ou recreativas. As suas oito páginas eram destinadas a reflexões teóricas em torno do anarquismo e a artigos de divulgação de cultura libertária. Dedicava, ainda, duas páginas às secções permanentes "O que todos devem saber", com diversas informações para a classe trabalhadora, e "Chico, Zeca & C.ª", destinado aos filhos dos operários. Se o diário A Batalha continuava a ser o espaço reservado ao combate dos trabalhadores e ao noticiário geral, o Suplemento completava a obra do jornal, através da elevação "intelectual, moral e artística" de todos os seus leitores. Gozava, contudo, de relativa autonomia em relação ao jornal, através de financiamento e orçamentação própria, apesar de ser formalmente dirigido pelo redactor principal de A Batalha, que acumulava a direcção do diário com a da nova revista.
À data da edição do primeiro número do Suplemento, foi o compositor tipográfico Carlos José de Sousa que desempenhou essas funções, depois de resistir à crise do mês anterior e após lhe ter sido negado o pedido de demissão pelo Conselho Confederal. Mas apesar da experiência acumulada na direcção de dois jornais de combate laboral (antes de A Batalha tinha exercido cargo semelhante no Avante), Sousa estava fragilizado por ter participado activamente em reuniões "extra-oficiais" com militantes do Partido Comunista Português (PCP), que tinham sido denunciadas pelo próprio Comité Confederal. A inquietação na cúpula da CGT e a sua reorganização interna levam a crer que seria a redacção de A Batalha quem dirigia realmente a nova publicação periódica, até porque tinha partido dela a vontade de iniciar uma revista cultural que colmatasse as lacunas do diário. Por esta razão, o Suplemento foi dirigido, ao que tudo indica, pelo chefe de redacção António Pinto Quartim, o jornalista mais experiente do colectivo responsável pela feitura do periódico.
O semanário alterou a sua designação logo no n.º 14, de 3 de Março de 1924, para Suplemento Semanal Ilustrado de A Batalha. As mudanças na composição editorial da revista não terminariam por aí, pois Carlos José de Sousa demitir-se-ia finalmente em Julho, debilitado pela quebra de confiança da cúpula da CGT e devido à incapacidade demonstrada em responder à instauração de regime censório e apreensões constantes de A Batalha, a partir de Maio, precisamente o mesmo mês em que os seus tipógrafos entraram em greve, reivindicando o pagamento de salários atrasados e incompletos. A alteração só se tornou efectiva em Outubro, quando o Conselho Confederal decidiu seguir a recomendação de Sousa e indicar o secretário-geral da CGT para as funções de direcção dos seus diversos órgãos de imprensa. Assim, o sapateiro Manuel da Silva Campos passou a dirigir o Suplemento a partir do n.º 46, de 13 de Outubro. Caiu a denominação de redactor principal, que é substituída pela figura do director, o que é menos uma formalidade do que se poderia pensar: como Campos admitiu em editorial do diário, a 7 de Outubro, seria menos activo nos trabalhos redactoriais que o seu antecessor, devido aos seus encargos no organismo confederal, pelo que garantiria uma maior independência à equipa de Quartim. Como consequência, o distanciamento de posições entre a Confederação Geral do Trabalho e A Batalha e o Suplemento tornar-se-iam mais evidentes nos meses que se seguiram.
As convulsões internas no país permitiram identificar o posicionamento ideológico do Suplemento: ao mesmo tempo que se opunha à instauração de uma ditadura militar em Portugal, apoiando a organização de diversos comícios, e repudiava os assassinatos de filhos de corticeiros grevistas em Silves, iniciava uma campanha contra os atentados bombistas que assolaram Lisboa entre Julho e Outubro. Para o Conselho Confederal, porém, a propaganda continuava a ser incipiente e o trabalho da redacção de A Batalha foi censurado, principalmente pelo espaço noticioso que era atribuído à União dos Interesses Sociais, à qual a CGT decidiu não dar o seu apoio formal, e ao assumir uma "atenciosa expectativa" em relação ao governo da esquerda democrática, de José Domingues dos Santos. A clivagem entre A Batalha e o Comité Confederal, por um lado, e o Conselho Confederal, por outro, agravar-se-ia após o 18 de Abril, quando o Conselho repudiou a posição de Silva Campos, ao empurrar a CGT para uma frente unida das esquerdas contra os golpistas. Em Julho, demitiu-se das suas funções de director de A Batalha, depois do seu administrador, Artur Aleixo de Oliveira, referir que o Suplemento não tinha correspondido às necessidades de propaganda para as quais tinha sido criado. Foi substituído no mesmo mês pelo ex-secretário-geral Santos Arranha, que passava a coordenar toda a imprensa da CGT.
A partir do n.º 86, de 20 de Julho de 1925, era já o nome de Arranha que surgia no cabeçalho do Suplemento. O novo director exerceria as funções a tempo inteiro, pelas quais seria remunerado. A sua eleição teve o propósito de impor uma linha ideológica intransigente e de restringir a autonomia da redacção liderada por Quartim, eliminando os desvios que se tinham verificado nos dois anos anteriores, além de executar uma "acção defensiva, franca e aberta, contra as manobras divisionistas do proletariado" conduzidas pelo jornal A Internacional, órgão da esfera de influência da ISV e do PCP. O conflito interno na CGT entre a maioria anarquista e a minoria comunista, que em 1923 tinha sido alvo de intenso escrutínio, ter-se-ia agravado e Arranha foi o escolhido para resolver esta divergência na imprensa confederal.
Os meses seguintes foram ainda marcados por outras contrariedades que debilitaram a CGT, A Batalha, o Suplemento e a recém-criada Renovação. O IV Congresso Nacional Operário, em Setembro, marcou a saída definitiva da Federação Marítima da confederação, o que resultaria numa perda de militância significativa, que também foi o efeito provocado pela vaga de deportações e prisões arbitrárias de trabalhadores. A repressão aumentou e, logo em Outubro, as instalações no 2º andar do 38-A da Calçada do Combro foram assaltadas pelas forças policiais. Na sua imprensa, o perigo fascista e a ditadura das forças vivas eram analisados pelos seus articulistas, mas, a partir de Fevereiro de 1926, os destaques de primeira página destinaram-se a cobrir o escândalo financeiro do Banco Angola e Metrópole. Estas reportagens de Mário Domingues contribuíram para um provável aumento das vendas de A Batalha, sem contudo alcançar os 6000 exemplares de tiragem do ano anterior. Mas o favorecimento deste tipo de conteúdo noticioso desagradou ao Conselho Confederal, que pretendia que os órgãos da imprensa cegetista se focassem na propaganda activa da Ideia e da revolução proletária.
A orientação de A Batalha voltou a ser posta em causa pela cúpula da CGT, principalmente aquando da publicação de artigos intitulados "Problemas sindicais", em Maio de 1926, que foram considerados um meio para Arranha se intrometer nas questões de organização sindical, fora das suas competências enquanto director da imprensa. Em Agosto, o antigo director do diário Manuel Joaquim de Sousa deu uma entrevista ao Diário de Lisboa, referindo-se "às crescentes intrigas" que partiam da redacção e aos "deslizes crescentes de A Batalha", que só contribuíam para destabilizar a vida interna da organização confederal. Mas com o eclodir do 28 de Maio, as divergências entre Santos Arranha e Manuel Joaquim de Sousa tornaram-se mais evidentes e escalaram até a demissão do primeiro, depois de lhe ter sido atribuído a responsabilidade de definir a posição da CGT, perante o golpe militar, como expectante e neutral, quando o Comité Confederal tinha já dado indicações para que se proclamasse a greve geral revolucionária em A Batalha de dia 29.
Ao lado de Sousa encontravam-se a União Anarquista Portuguesa, as Juventudes Sindicalistas e o jornal O Anarquista, dirigido por Francisco Quintal e apoiado por alguns militantes que lhe eram próximos: Emídio Santana, Adriano Botelho e Germinal de Sousa, filho do ex-secretário-geral. Logo em Abril, o periódico lançou um ataque violento à orientação da imprensa cegetista, questionando se o Suplemento se tratava de um museu de variedades, no seguimento da publicação de um artigo de César Porto sobre a instrução soviética. Em Julho, as críticas estenderam-se à restante redacção, que apoiou Arranha no diferendo com a CGT. Em causa estavam os salários auferidos pelos "profissionais do jornalismo" de A Batalha e que a afastavam da sua direcção revolucionária. Dois dias depois, Ferreira de Castro, Jaime Brasil, Pinto Quartim e Eduardo Frias responderam a este "insulto soez", abandonando o Suplemento e restantes publicações periódicas. Só Castro regressaria, já em Setembro e sem Arranha na direcção. Foi substituído por Joaquim de Sousa a partir do n.º 144, aquele que seria o primeiro de dois directores interinos da revista.
Agosto terminou com a necessidade de composição de um novo Conselho Confederal que só tomou posse em Novembro. Até lá, A Batalha e a sua revista semanal foram geridas pela redacção neste período transitório, supondo-se que o director interino teria um papel de coordenação mais limitado. Ao contrário de Quartim, que ao que tudo indica não regressou aos escritórios na Calçada do Combro após a polémica em que se viu envolvido com O Anarquista, Mário Domingues, Alfredo Marques, Cristiano Lima e David de Carvalho mantiveram-se na redacção. Os "rapazes" tornaram-se os novos coordenadores do diário e do Suplemento. As primeiras alterações fizeram-se sentir logo no título do semanário, que do n.º 145 em diante, passou a designar-se Suplemento Literário Ilustrado de A Batalha.
Em plena ditadura militar, a CGT continuou focada na resolução do clima de crispação interna. A eleição do novo Conselho Confederal resultou no abandono das Federações do Livro e do Jornal, Metalúrgica, Mobiliária e Vinícola, conflito que nunca terá sido superado, mas apenas abafado pelo empreendimento reviralhista de Fevereiro de 1927. Para agravar a situação, o diário A Batalha passava por um grave crise financeira, apesar dos impressionantes 18000 escudos angariados em Novembro, após uma campanha de solidariedade. Apesar do diário apresentar contas deficitárias, a situação do Suplemento era bem diferente, apresentando um lucro de 6789$86 quando deixou de se editar.
Assim, o período de reformulação do Conselho Confederal e a reorientação da linha editorial de A Batalha tornaram a vida confederal insustentável. Os últimos meses de vida do diário e da revista revelavam isso mesmo: a direcção interina do jornal e do seu Suplemento voltou a mudar, quando Joaquim de Sousa foi substituído por Alberto Dias - à época secretário das Federações no novo Secretariado eleito - em Dezembro. Desempenhou essas funções durante a edição de apenas cinco números do Suplemento (n.ºs 159 a 163), quando deu o seu lugar ao ferroviário Mário Castelhano. Com a chegada do novo director, Carlos Maria Coelho abandonou o cargo de editor, depois de o ter exercido durante 163 números. Para acompanhar Castelhano nos derradeiros três números, foi nomeado Silvino Noronha. A nova equipa mandatada pela cúpula da CGT demorou-se pouco tempo no cargo, pois o Suplemento cessaria a publicação a partir do n.º 166, de 31 de Janeiro de 1927.
A repressão da revolta de Fevereiro de 1927 dirigiu as forças policiais para as instalações da CGT partilhadas com a redacção de A Batalha. Operários, tipógrafos e redactores foram encarcerados e o jornal foi proibido por decisão administrativa. O diário voltou a editar-se em Abril, mas o Suplemento tinha deixado de existir, apesar da vontade de Castelhano em retomar a sua publicação. A nova vida do jornal, porém, não seria longa e reduzida ficaria pelo assalto policial de 2 de Novembro ao palácio Marim-Olhão, que destruiu a tipografia, as instalações da Federação da Construção Civil e da secção editorial, apreendendo todo o acervo propagandístico e editorial da empresa. Nada mais restava à Batalha que sobreviver na clandestinidade, através do esforço e resiliência de militantes dedicados.
António Baião
Um Expoente do Jornalismo Empenhado
O Suplemento Literário e Ilustrado d’A Batalha representa um ponto alto na fileira de publicações político-culturais anarquistas e, ao mesmo tempo, uma sua concretização singular e não mais renovada no espaço de língua portuguesa – num género que perdurou ao longo do seu século.
Editou-se em Lisboa entre Dezembro de 1923 e Janeiro de 1927 com uma rigorosa periodicidade semanal, saindo para as bancas, quiosques e ardinas sempre às segundas-feiras, cedo de manhã.
De facto, a primeira observação que um analista pode fazer sobre esta colecção é a da sua rigorosa regularidade, tanto no aspecto imagético que apresentava e na estrutura da paginação – somente com pequenas inovações tipográficas em cada novo ano – como no cumprimento exacto da sua cadência de saída, a despeito das turbulências políticas da época: os movimentos sediciosos militares de 18 de Abril de 1925, de 3 de Fevereiro e de 28 de Maio de 1926, ou os perigos representados pela Cruzada Nun'Álvares ou pel’”A desagregação das forças políticas”. Apenas a revolta antiditadura de 3-7 de Fevereiro de 1927 e a repressão que se lhe seguiu calaram a sua voz definitivamente.
O quadro redactorial do Suplemento era praticamente comum ao das restantes publicações da editorial d’A Batalha, ou seja, o jornal diário, os pequenos livros editados esporadicamente (por exemplo, a colecção “A Novela Vermelha” ou o Almanaque para 1926) e, por último, o magazine quinzenal Renovação que saiu entre Julho de 1925 e Junho de 1926. É plausível admitir que certos textos inicialmente destinados a um destes títulos acabassem por ser publicados em outro suporte, por razões de oportunidade ou de conteúdo.
Foram seus principais redactores e colaboradores Ferreira de Castro, Nogueira de Brito, Mário Domingues, Jaime Brasil (entretanto também presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Imprensa), Adolfo Lima, Ladislau Batalha, Arnaldo Brazão, Bento Faria, José Carlos de Sousa (o porta-voz do grupo anarquista “O Semeador” e então presidente da Universidade Popular Portuguesa), Julião Quintinha, Jesus Peixoto, Alfredo Marques, Cristiano Lima, Eduardo Frias, mais raramente David de Carvalho, Roberto das Neves ou Vasco da Fonseca, e, nas ilustrações, Stuart Carvalhais e Roberto Nobre.
“A voz que clama no deserto” é a de um cronista assíduo desta folha, talvez uma pena escondida de Jaime Brasil. Também o intrigante e indecifrável pseudónimo “Abilos” (ou “Àbilos”, como alguma vez se grafou) é um autor oculto que subscreve numerosos “sueltos”, aforismos e alguns artigos. Pode conjecturar-se que se tratasse do jornalista profissional António Pinto Quartim que assegura a chefia da redacção, corrige a prosa de terceiros, decerto escreve alguns editoriais não-assinados, e é, desde o início, o grande animador desta aventura; porém, contra essa hipótese milita o facto de ter cessado a função em Julho de 1926 e tal assinatura persistir ainda nos tempos seguintes (como aliás a de Ferreira de Castro). As ásperas discussões acerca da atitude perante o golpe militar da “Revolução Nacional” haviam levado então Quartim a abandonar o seu posto, juntamente com o afastamento de Castro, Brasil e Frias, acusados internamente de “carreirismo” por alguns radicais.
A folha é subintitulada “Suplemento literário e ilustrado” (tendo perdido o “e” a partir do Ano II). O adjectivo “literário” refere-se à característica de, embora anexa a um periódico noticioso, não lhe interessarem propriamente as actualidades do momento, mas antes a qualidade e reflexividade do texto, embora sobre o soclo de temas muitas vezes em debate na opinião pública portuguesa ou estrangeira. Nesse sentido, “literário” é compreensível e adequado, mas sem perder a noção, por um instante sequer, de que A Batalha se assume sempre como um instrumento de combate de ideias e de posições contrapostas na cena política e social. Sobre a base dos analíticos aqui elaborados, podemos considerar que cerca de 30% das quase 3 mil peças que o Suplemento publicou ao longo da sua existência se inseriam naquela categoria então muito referenciada de “crítica social”, enquanto quase outro tanto dava conta de realidades e projectos emancipatórios das classes subordinadas, incluindo aqui assuntos associativos, reivindicativos ou protestatários. Muito mais atrás mas, ainda assim, em posição de relevo (com cerca de 15% do total), inseriram-se matérias educativas de diversos géneros. E em lugares menores (sempre abaixo dos 10%) surgiam temas de crítica às políticas estatais, à ordem religiosa e às práticas económicas do patronato.
Quanto ao “ilustrado” figurando no cabeçalho, ele refere-se mais a uma intenção de comunicação com os leitores que também usassem o grafismo como código significante de transmissão de ideias e valores, não devendo pois limitar-se à linguagem escrita e assumindo deste modo um dos pressupostos da corrente estética modernista. A realização ficou aqui, porém, um pouco aquém do desejado. Ou foi talvez a clareza dessa insuficiência que terá suscitado na equipa editora a iniciativa posterior do lançamento da revista Renovação. Em todo o caso, se no jornal diário se inseriam já com frequência fotografias ou zincogravuras, no Suplemento elas dividem-se nestas principais modalidades: desenhos ilustrativos das temáticas privilegiadas pela redacção; retratos de personalidades da cultura ou do movimento social; fotografias artísticas (de esculturas, monumentos ou paisagens); mais raramente, desenhos ou fotografias de acontecimentos históricos ou de actualidade.
Como folha cultural e de ideias, o Suplemento dedicou muitas páginas: à dignificação do trabalho, estigmatizando a sua exploração e opressão social; à chamada crítica social de costumes (festividades, álcool, mendicidade, gorjetas, touradas, futebol, etc.); à saúde, higiene e conselhos práticos para a vida quotidiana; à crítica de arte, musical e literária; à publicação de contos, poesia, aforismos, peças teatrais e evocação de grandes figuras universais (Tolstoi, Zola, Anatole France, Puccini, Lénine, Gorki, Gandhi, Unamuno, Tagore) ou de vultos nacionais assinaláveis (a actriz Ângela Pinto ou o anarquista Ávila); a página 7 continha em exclusivo “O que todos devem saber: Aproveitemos os nossos momentos de descanso para nos instruirmos um pouco” (com variadíssimos contributos de cultura geral); à excepção das derradeiras edições, a última página (a 8) foi sempre dedicada às crianças e adolescentes com a secção “Chico, Zeca e Cª” (contendo pequenos contos, adivinhas, jogos, peças para recorte e colagem, etc.); e, last but not least, sobre o papel social da mulher (a sua importância na educação, contra a prostituição e as modas, com dois controversos inquéritos feitos sobre a sua sindicalização e concorrência com os homens no trabalho). É, de resto, fundamentalmente sobre este tema que se centram as últimas edições do Suplemento, talvez porque os tempos da luta operária tivessem já entrado em franco declínio.
O estilo irónico e mordaz de alguns dos seus textos – muito presente no comentário à actualidade política nacional – retrata-se bem no cartaz anunciador do lançamento do Suplemento, que rezava assim: “ALTO! EM NOME DA LEI É intimada toda a população a ler às 2ªs feiras o Suplemento literário de A Batalha”, com a caricatura ameaçadora de um “cívico” de casse-tête na mão.
João Freire
A Capital (segunda série) foi um jornal vespertino de publicação a nível nacional que se publicou entre 21 de fevereiro de 1968 e 30 de julho de 2005, tendo restringido o universo da sua distribuição apenas aos distritos de Lisboa, Santarém e Leiria em 2000, e passando a matutino em 2001.
O jornal nasce de uma cisão no Diário de Lisboa, e quando saiu a primeira edição a 21 de fevereiro de 1968, era segundo dizia na primeira página, continuidade, invocando a tradição do jornal fundado a 1 de julho de 1910, por Manuel Guimarães, que teve na sua breve existência como colaboradores André Brun e Júlio Dantas.
Sociedade Gráfica da Capital, ed. com.; Lopes, Norberto, 1900-1989, dir. publ.
Primeiro diário da “África portuguesa”, fundado em 1923 por Adolfo Pina e que chegará na fase final da colonização portuguesa a ter 15 delegações no território e a ser distribuído por via aérea, vindo a atingir uma tiragem de 45 mil exemplares diários. Foi propriedade da Empresa Gráfica de Angola, que começou com capitais privados, de empresas e do Banco Nacional Ultramarino (Melo 1993, 143).
Criado como semanário, tornou-se bissemanário em 1924, passou a diário da tarde em Outubro de 1926 e fixou-se como matutino a 15 de Agosto de 1933. No ano do lançamento anuncia uma tiragem de 20 mil exemplares mensais (Fonseca 2014, 162). Depois de uma viagem de Pina à metrópole e ao estrangeiro, adoptou o grande formato, broadsheet, o cabeçalho e a divisão de páginas a sete colunas que manteve nas décadas seguintes. Durante mais de meio século, teve uma “gigantesca importância” no panorama da imprensa angolana e foi uma instituição, uma “verdadeira escola de formação de homens de imprensa” (Melo 1993, 143-45).
Editora.
A Revolta: semanário communista-anarchista é a continuação do Rebelde, publicação dos anarquistas de Lisboa, mas também da coligação entres anarquistas de Lisboa e Porto. A Revolta: semanário communista-anarchista é antecedido pela publicação Rebelde, e sucedido pela publicação A Revolta: revista semanal do Socialismo-anarchico (1892-93)
Semanal
Publicou-se regularmente durante três anos. Editado e dirigido por A.M. Gonçalves Viana.
-Pinto Quartim
Dados editoriais
Em linha com a agitação política e social provocada pelo regicídio de Fevereiro de 1908, a propaganda anarquista começou a intensificar-se, continuando o impulso iniciado anos antes com a publicação de uma série de revistas que, contudo, tinham conhecido uma existência efémera. Depois do desaparecimento da Revista Livre, de Campos Lima, e da Luz e Vida, de Ângelo Jorge, o espaço doutrinário foi ocupado pelo periódico Novos Horizontes, cujo primeiro número foi editado em 1906. No entanto, a revista de propaganda e crítica também teria vida curta e findaria a sua publicação em Maio de 1908. Só com o surgimento de A Sementeira, em Setembro de 1908, é que o anarquismo português passou a contar com um órgão duradouro e com a coerência teórica necessária para se entregar à tarefa de propagandear a Ideia.
A aventura editorial de A Sementeira iniciou-se antes do lançamento do primeiro número da revista. Em 1906, o arsenalista Hilário Marques tinha já sido o principal animador do grupo Acção Directa - responsável pela edição de brochuras de Malatesta, Cláudio de Lisle e Kropotkin -, que se viria a dissolver no grupo editor de A Sementeira, dois anos depois. O nascimento da publicação mensal ilustrada de crítica e sociologia dava o seguimento natural a esta empresa e aproveitava a desocupação do espaço destinado à imprensa de orientação anarquista, após o desaparecimento da Novos Horizontes, para iniciar um trajecto de mais de uma década.
O principal dinamizador da revista foi o próprio Marques, proprietário de A Sementeira, coordenador do projecto e director durante toda a sua existência. Nestes encargos administrativos, foi auxiliado pelo tipógrafo Lima da Costa, que, ao que tudo indica, terá sido não só o responsável pela composição gráfica da revista, como um importante suporte na sua direcção durante o primeiro período em que Hilário foi forçado a deslocar-se para Glasgow, com o propósito de fiscalizar a construção de propulsores de dois contratorpedeiros que estavam a ser construídos no Arsenal da Marinha, entre 1911 e 1912. As tarefas editoriais foram desempenhadas pelo farmacêutico Ismael Pimentel a partir do n.º 27, de Novembro de 1910, que também colaborou activamente na elaboração de artigos doutrinários, sob o pseudónimo de Ismaelita. Mas a primeira série de A Sementeira ficou ainda marcada pela importante actividade redactorial de Gregório Nazianzeno de Vasconcelos, regressado do Brasil no final de Abril de 1911, e que de imediato se envolveu na feitura da revista. Sob os pseudónimos Zeno Vaz, Fernan-Vaz e, claro, Neno Vasco, colaborou em 20 dos 22 números publicados entre Maio de 1911 e Fevereiro de 1913, data que marcou o fim da primeira série, após uma série de 52 meses de publicação, apenas interrompida entre Agosto e Outubro de 1911 e Janeiro e Março de 1912.
O primeiro interregno da edição de A Sementeira pode ter sido instigado pela instabilidade naturalmente provocada pela partida do seu director para Glasgow, poucos meses antes. A interrupção serviu, porém, para definir a descontinuação da paginação iniciada no primeiro número e a preparação do primeiro volume da revista, que foi constituído pelos seus primeiros três anos. Com o n.º 37, deram-se alterações importantes na revista: a paginação reiniciou-se e o preço avulso baixou para metade, de 40 para 20 réis. Esta diminuição de valor deveu-se, provavelmente, à decisão de terminar a publicação dos suplementos ilustrados que acompanhavam os artigos biográficos das páginas centrais de cada número.
A segunda intermissão ficou a dever-se à violência policial exercida sobre os militantes avançados, logo após a greve geral de Janeiro de 1912. Os editores e redactores da revista foram impedidos de publicar o n.º 41 atempadamente, mas da convulsão social provocada pela paralisação operária e pela consequente repressão governamental nasceu uma nova iniciativa de propaganda, que se iria desenvolver a partir da sede administrativa de A Sementeira. Com o fortalecimento das afinidades entre Neno Vasco, recém-chegado a Lisboa, e Lima da Costa, durante o movimento grevista, surgiu a intenção de se iniciar a publicação de um conjunto de panfletos anarquistas e sindicalistas. De um contexto reivindicativo nasceu o grupo A Brochura Social, que iria ter um papel importante a desempenhar alguns meses mais tarde, durante o período em que a revista esteve suspensa.
Após o retorno a Lisboa do seu fundador, no final de Abril, A Sementeira depara-se com problemas de financiamento, devido ao constante atraso no pagamento das assinaturas. Apesar dos apelos que foram lançados nas páginas da revista, esta questão continuaria e seria uma das causas para a sua suspensão, em Fevereiro de 1913. Mas não se tratou da única razão: o regresso de Hilário Marques revelou-se temporário, voltando a Glasgow em meados de Março, devido aos seus compromissos profissionais. Sem o seu principal animador e com o provável afastamento de Lima da Costa, que se terá incompatibilizado com Neno Vasco por causa da administração deficiente de A Brochura Social, a revista foi interrompida após 52 números publicados, uma colecção completa de 292 páginas e outra incompleta de 128.
Sem a publicação de A Sementeira, a actividade editorial do seu grupo estagnou, com a excepção da publicação de duas brochuras. Em 1914 editou-se o panfleto de Landauer sobre A Social Democracia na Alemanha e no ano seguinte é lançado Em tempo de eleições, de Malatesta, cuja primeira edição tinha sido obra do grupo Acção Directa. Assim, a acção propagandística foi garantida pelo grupo A Brochura Social, que em Junho de 1914 apresentou uma tese sobre a relação entre anarquistas e movimento operário na Conferência Anarquista da Região Sul. Com a saída de Lima da Costa, as tarefas de administração começaram a ser desempenhadas por Aurélio Quintanilha, com o auxílio do advogado Sobral de Campos. O curto catálogo editorial do grupo leva a crer, contudo, que essa gestão também não foi bem sucedida e o grupo desintegrar-se-ia nesse mesmo ano. Entretanto, vão surgindo as primeiras notícias que dão como inevitável o ressurgimento de A Sementeira, mas tal só viria a confirmar-se em Janeiro de 1916.
Com o relançamento da revista, a equipa administrativa manteve-se unida: ao lado do director Hilário Marques, regressado de Glasgow, continuava Pimentel, com funções editoriais. O preço de 2 centavos (20 réis antigos) permanecia o mesmo do final da primeira série, mas este seria um dos poucos elementos intocados para o início da nova série. A principal alteração fez-se sentir no formato de A Sementeira, que reduz os 22x33 cm para 16x25 cm, aumentando as 8 páginas por número para 16. Com o início da nova série, a redacção e administração abandonaram a antiga casa do director, o "cacifo" na Rua da Barroca, onde se instalaram no início de 1909 (depois de uma curta passagem pelo 1º andar do 44 da Rua das Salgadeiras), deslocando-se para a taberna Feijão Encarnado, no Cais do Sodré, onde permaneceram até Agosto de 1919, quando a revista cessou a sua actividade. Também a impressão deixou de se efectuar na tipografia A Publicidade, na Rua do Diário de Notícias, passando a realizar-se numa oficina situada na Rua do Poço dos Negros, n.º 81, onde também era composto o Germinal.
Todavia, no dealbar de 1916, o contexto económico e político não parecia beneficiar a continuação desta aventura editorial. As finanças da revista continuavam numa situação bastante difícil e dependiam do pagamento atempado das assinaturas, dos donativos das comunidades de emigrantes em New Bedford e no Brasil e do provável apoio do grupo Aurora Social, que editou A Aurora, no Porto, e com quem Hilário Marques sempre manteve uma relação muito próxima. Também a carestia do papel, provocada pela Grande Guerra, contribuiu para que o preço unitário da revista aumentasse para 3 centavos, a partir do n.º 25, de Janeiro de 1918, número no qual é reiniciada a paginação. Desta forma, fechava-se a terceira colecção de A Sementeira, que correspondia aos últimos dois anos de publicação, com um total de 384 páginas. Esta solução serviu, muito provavelmente, para aumentar as receitas do grupo editorial, através da venda ao público de um volume com índice e ainda com uma encadernação cuidada.
As dificuldades da edição também eram notadas nos conteúdos publicados, tanto pela colaboração mais irregular de Neno Vasco, como pela frequência com que se encontravam espaços vazios na revista, entre Maio de 1916 e Junho de 1917. Era a censura a fazer-se sentir sobre um periódico de cariz anti-intervencionista. A supressão de 9 páginas e meia do número que estava previsto sair em Novembro de 1918 foi a causa apresentada pelo editor para justificar a interrupção da publicação entre Outubro e Fevereiro de 1919. Só após a abolição da censura é que A Sementeira reapareceria, procedendo a alterações no corpo editorial: Pimentel foi afastado das suas funções por alegadamente ter alinhado com fregueses monárquicos da sua farmácia nas críticas ao regime republicano. Marques passava a acumular o cargo de director com o de editor até ao derradeiro número da revista, que chegou de forma imprevista e sem aviso em Agosto. Os n.ºs 25 a 41, que totalizavam 272 páginas, foram encadernados para a quarta e última colecção deste periódico.
Com o fim definitivo desta publicação, Hilário Marques dedicou-se ao jornal operário que tinha ajudado a fundar em Fevereiro. Tratava-se de A Batalha, à época órgão na imprensa da União Operária Nacional. O trabalho propagandístico de A Sementeira continuou, publicando cinco brochuras entre 1919 e 1923, muito provavelmente pelo esforço solitário do seu grande animador, que já não pôde contar com a ajuda de Neno Vasco para a realização dessa tarefa. A revista já não regressaria, pois o espaço doutrinário fora já ocupado pelo diário que iria marcar a orientação do anarquismo português na década seguinte. A década anterior, porém, definiu-se nas páginas da revista dinamizada pela impressionante energia de Marques. Foi este invulgar ânimo do arsenalista que fez de A Sementeira o periódico de maior duração e prestígio, quando comparado às demais revistas anarquistas do seu tempo.
António Baião
Breve Notícia Sobre a Trajetória de A Sementeira
Em setembro de 1908 salta do prelo o primeiro número de A Sementeira. Na primeira página, encimado pelo título, “Ao aparecer”, o texto de apresentação não deixava dúvida sobre a missão da “Publicação Mensal Ilustrada – Crítica e Sociología”. O parágrafo esclarecia que:
“A Sementeira, aeroplano de idéas, voando por cima de todas as mentiras economicas, politicas e religiosas, na sua missão evangelisadora, através de todos os obstaculos que se lhe deparem, não sairá do fim a que vem destinada: propagar idéas, definir principios, esses principios tantas vezes deturpados e que sempre pairaram por cima de todas as miserias cerebraes de muito propagandista popular, principios defendidos e propagados pelos Reclus, Kropotkine, Grave, Malato, Malatesta, Ibsen, Hamon, etc., princípios que nos conduzirão indubitavelmente a uma sociedade nova, livre e do Bom-Acôrdo.”
A publicação nascia lisboeta e seu proprietário e editor era o arsenalista Hilário Marques. Para a execução do projeto gráfico, produção textual e traduções envidam esforços importantes anarquistas da época. Entre eles nos parece útil destacar Neno Vasco, Ismael Pimentel, José Luís, Emílio Costa, Bento Faria, César Porto, Adolfo Lima, Sobral de Campos, Campos Lima, José Carlos de Sousa, Bel-Adam (pseudônimo de Severino de Carvalho) e ainda outros.
No geral não fica difícil perceber que A Sementeira caracteriza-se antes pela divulgação da doutrina anarquista, sua propaganda, com ênfase na interpretação dos fatos nacionais e internacionais analisados por esse prisma. As muitas notas biográficas, bem como as traduções e textos de opinião, conjugam-se no esforço de conferir maior nitidez aos princípios ideológicos do anarquismo; sempre no sentido prático da organização, posta a serviço da redenção social de explorados e oprimidos. Percebe-se também a preocupação de inaugurar formas eficazes de disseminar o espirito de rebeldia, um tipo de “erudição radical”, com o qual se possa contar em momentos de ruptura política e social. Ainda que nos volumes apareçam diferentes demandas, de acordo com os influxos e conjunturas, a linha doutrinária sofre pouca descontinuidade. Ela é, de fato, o elemento de identidade da revista.
Os fatos históricos e as efemérides libertárias são tratados dentro da mesma perspectiva, servindo ao mesmo propósito. Não é diferente no caso da iconografia, sempre presente, em alguns números mais em outros menos, mas invariavelmente afinada com o protocolo geral de transformação social. Como muito bem destaca João Freire, as preferências dos responsáveis pelo conteúdo da revista recaem sobre o comunismo anarquista, mais que pelo individualismo ou sindicalismo. Um fato que, de resto, não nos parece incomum naqueles meios onde prevalecia o cuidado com a disseminação da doutrina.
Entre os teóricos, Errico Malatesta aparece com destaque, principalmente depois do retorno de Neno Vasco a Portugal, em 1911. Além de tradutor incrivelmente erudito, Neno Vasco destaca-se também como pensador original, como um dos mais perspicazes homens de doutrina. Das páginas de A Sementeira, ele orienta os anarquistas na difícil tarefa de atuar diligentemente nos sindicatos. Não descuida um momento sequer da tarefa de inserir socialmente a ideologia anarquista. É o mesmo que anima as colunas de teatro, literatura e o cancioneiro revolucionário. Não é menos responsável pela divulgação de brochuras de propaganda, edições anexas, e indicações de livros publicados que circulam na época. Com Lima da Costa, Neno Vasco deu início a um conjunto de publicações intitulado “A Brochura Social” que, a despeito da importância, ainda que com o apoio de Sobral de Campos e Aurélio Quintanilha, não logrou aportar os recursos materiais necessários que garantissem a sua circulação mais efetiva.
A questão operária é, de muito longe, o assunto mais tratado na revista. Sem descuidar das muitas revoltas nas mais variadas latitudes do globo, ainda assim, as greves e o cotidiano laboral são matérias de destaque. Os editores, todavia, não confundem o movimento operário com sindicalismo; fazem a diferença ao enxergarem o sindicalismo como método, apenas. Ainda que bastante influenciada pelo prestígio do sindicalismo revolucionário, principalmente o francês, fica claro que o papel central de A Sementeira é divulgar o anarquismo. Nesse ponto, ainda que com ênfase na doutrina, ela reflete a dualidade libertária típica ao não dissociar as esferas social e política, ao tornar evidente a necessidade de inserção dos libertários no campo da luta social.
Por tudo isso, não foram poupados nas suas páginas os republicanos e toda a sorte de “trânsfugas” do anarquismo. O grupo de editores, constituído pelas figuras aqui destacadas, parecia não reconhecer limites para o combate ao que representasse perigo ao projeto geral de disseminação do ideário. Ainda que sem a coesão de um grupo de afinidades políticas, articulavam-se perfeitamente bem, desenvolvendo uma dinâmica tal que garantiu a continuidade da publicação; uma “informalidade” que pode bem explicar a aproximação de simpatizantes, com destaque para alguns que se ocuparam dos serviços gráficos, garantiram locais de reuniões e ainda mais.
Sobre a circulação da revista cabe dizer que era vendida ao preço unitário, sendo possível ainda, fazer assinaturas. O número de páginas variou com o tempo, bem como o valor. O público interessado podia encontrar A Sementeira em sindicatos, sedes de grupos anarquistas, em kiosques e no comércio de Lisboa, Porto e Coimbra, principalmente. Havia também subscritores no Brasil, em diferentes partes da África e América. Os editores em Lisboa ajudavam ainda a distribuir outras publicações anarquistas que vinham do Norte, como o caso de A Vida e a A Aurora.
No geral pode-se afirmar que A Sementeira esteve sempre no campo da luta revolucionária e social. Foi assim no 5 de Outubro de 1910, como no caso do Outubro da Rússia soviética, em 1917. Foi, no âmbito da Grande Guerra (1914-1918), essencialmente “antiguerrista” e nesse particular acompanhou a corrente internacional encabeçada por Malatesta. Ainda que sem exclusivismos, destacou em suas páginas a preferência comunista anarquista da maioria dos editores. E por tudo isso marcou indelevelmente o movimento libertário de língua portuguesa.
Alexandre Samis
A Terra era um jornal clandestino e irregular, ligado com o PCP, publicado desde 1949 (1.ª série 1949, 2.ª série 1963). Era anticapitalista e antifascista, tendo como público-alvo os camponeses. Após o 25 de abril, continuou a existir, já não clandestino, e abordava temas como a política e a direito agrário, incluindo críticas à reversão da reforma agrária.
Folha informativa do MPLA (Angola). Com este slogan, também editou brochuras.